Imagem destacada:Jardim das Portas do Sol com vista sobre o Tejo em Santarém
Vitor Oliveira from Torres Vedras, PORTUGAL, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons
Erguida sobre um planalto com vista para o Tejo e para a extensa Lezíria, Santarém é uma daquelas cidades portuguesas que revelam muito mais do que a primeira impressão deixa adivinhar. Quem atravessa apenas a região pela autoestrada dificilmente imagina a quantidade de história, arquitetura e pequenos detalhes que se concentram no seu centro histórico.
A antiga Scallabis foi um importante centro durante o período romano, teve relevância estratégica durante a ocupação muçulmana e foi conquistada por D. Afonso Henriques em 1147. Séculos depois, Santarém voltaria a ocupar um lugar simbólico na história portuguesa quando, na madrugada de 25 de Abril de 1974, a coluna militar comandada por Salgueiro Maia partiu da Escola Prática de Cavalaria em direção a Lisboa.
Hoje, a cidade convida sobretudo a ser descoberta a pé. Entre igrejas góticas, ruas antigas, azulejos, miradouros e jardins, Santarém conserva uma forte identidade ribatejana e constitui uma excelente paragem para quem está a explorar o centro de Portugal.
Por que vale a pena visitar Santarém?
Santarém é frequentemente apresentada como a “capital do gótico”, devido à concentração e qualidade do património medieval existente na cidade. Mas limitar Santarém às suas igrejas seria reduzir demasiado a experiência.
Há a vista sobre o Tejo nas Portas do Sol, o Mercado Municipal coberto de azulejos, a memória romana de Scalabis, o património religioso, as ruas comerciais do centro, os sabores ribatejanos e uma relação com a história contemporânea portuguesa que chega até à Revolução de Abril. O próprio município propõe percursos temáticos dedicados ao gótico, ao azulejo, ao património religioso e à relação da cidade com o rio.
Para uma primeira visita, um dia permite conhecer os principais pontos. Com dois dias, é possível fazê-lo com mais calma, visitar museus e igrejas, provar a gastronomia local e explorar também as zonas junto ao Tejo.
Jardim e Miradouro das Portas do Sol
Se tiver de escolher apenas um local para começar a visita, escolha as Portas do Sol.
O jardim ocupa a antiga alcáçova de Santarém, dentro da área onde se encontrava o castelo medieval. Das antigas fortificações subsistem troços de muralha e torreões, mas é sobretudo a paisagem que torna este lugar especial.
A partir daqui abre-se uma ampla vista sobre o rio Tejo e a Lezíria, uma das paisagens mais características do Ribatejo. O espaço foi transformado em jardim a partir do final do século XIX e tornou-se uma verdadeira varanda panorâmica sobre o vale.
É também um bom ponto para perceber a posição estratégica de Santarém. A cidade desenvolveu-se num planalto elevado sobre o rio, dominando visualmente uma enorme extensão de território.
Vale a pena regressar ao final da tarde, quando a luz sobre o Tejo transforma completamente a paisagem.
Descobrir a Igreja da Graça

Concierge.2C, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons
A Igreja de Nossa Senhora da Graça é um dos monumentos que melhor justificam a reputação de Santarém como cidade do gótico.
A construção começou no final do século XIV e prolongou-se pelo início do século XV. Na fachada destacam-se o portal elaborado e a grande rosácea, num dos exemplos mais expressivos do gótico flamejante existente na cidade.
No interior encontra-se outro motivo importante para a visita: a sepultura de Pedro Álvares Cabral, ligada a uma das figuras mais conhecidas da expansão marítima portuguesa. A igreja conserva ainda importantes monumentos funerários da família Meneses.
O Largo Pedro Álvares Cabral e as ruas que rodeiam a igreja são também uma das zonas mais agradáveis do centro histórico para caminhar sem pressa.
Convento de São Francisco

Vitor Oliveira from Torres Vedras, PORTUGAL, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons
O Convento de São Francisco é um dos melhores exemplos do património gótico de Santarém e ajuda a compreender por que razão a cidade é frequentemente associada à arquitetura medieval portuguesa.
A sua fundação remonta a 1242, ligada à Ordem Franciscana, e o edifício segue a tradição austera do chamado gótico mendicante, visível na amplitude da igreja, nos vãos altos, nos pilares esbeltos e na sobriedade decorativa.
Ao longo dos séculos, porém, o conjunto foi sendo enriquecido com elementos de diferentes épocas, incluindo influências manuelinas, renascentistas e barrocas.
Um dos elementos mais notáveis é o coro-alto, mandado construir por D. Fernando no século XIV para acolher o seu túmulo e o de sua mãe, D. Constança. A estrutura distingue-se pela decoração escultórica e pela delicadeza das nervuras e capitéis.
O convento chegou a possuir dois claustros, dormitórios, refeitório e biblioteca, refletindo a importância que alcançou ao longo da Idade Média.
O edifício sofreu, no entanto, sucessivos danos provocados pelo terramoto de 1755, pelas invasões francesas, pelas guerras liberais e por utilizações militares posteriores. Depois de várias intervenções de recuperação, voltou a abrir ao público em 2009.
A igreja e os claustros foram classificados como Monumento Nacional em 1917, reforçando a importância deste conjunto no património histórico e artístico de Santarém.
Hoje, a visita ao Convento de São Francisco permite observar várias camadas da história arquitetónica da cidade num único espaço e constitui uma paragem essencial num percurso pelo centro histórico.
Percorrer a Santarém gótica
A Igreja da Graça é apenas uma parte do património medieval da cidade. Santarém possui um verdadeiro percurso gótico que pode ser feito a pé.
Entre os locais mais interessantes encontra-se o Convento de São Francisco, fundado no século XIII. O edifício nasceu dentro da tradição austera das ordens mendicantes e foi posteriormente enriquecido, destacando-se elementos como o coro-alto mandado construir por D. Fernando. Ao longo dos séculos sofreu danos, transformações e diferentes utilizações, tendo sido novamente aberto após obras de recuperação.
A Igreja de Santa Clara, também do século XIII, é outro exemplo relevante do gótico mendicante. E a Igreja de São João de Alporão combina elementos românicos e góticos, refletindo diferentes etapas da arquitetura medieval da cidade. O edifício chegou a funcionar como teatro e mais tarde tornou-se espaço museológico.
Para quem gosta de arquitetura, esta concentração de monumentos é provavelmente uma das maiores surpresas de Santarém.
Torre das Cabaças

GualdimG, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons
Outro dos símbolos da cidade é a Torre das Cabaças, antiga Torre do Relógio.
Construída sobre uma estrutura preexistente do recinto medieval, tornou-se torre do relógio municipal. No topo encontram-se as peças cerâmicas em forma de cabaça que ajudam a dar ressonância ao sino e que acabaram por dar origem ao nome popular do monumento.
A torre integra o chamado Núcleo Museológico do Tempo e encontra-se muito próxima de São João de Alporão, pelo que os dois locais podem ser visitados na mesma caminhada.
Igreja de Santa Maria de Marvila
Santarém não vive apenas do gótico. A Igreja de Santa Maria de Marvila permite perceber outras épocas da cidade e destaca-se particularmente pela decoração azulejar.
Os percursos oficiais de Santarém integram Marvila no itinerário manuelino e renascentista, mas o interior ficou também marcado pela aplicação posterior de extensas superfícies de azulejos.
É um bom exemplo da sobreposição de estilos que caracteriza muitos monumentos portugueses: estruturas medievais modificadas ao longo de séculos, refletindo diferentes épocas, gostos e formas de devoção.
Sé Catedral e Museu Diocesano

Diego Tirira from Quito, Ecuador, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons
Na Praça Sá da Bandeira, um dos espaços centrais da cidade, ergue-se a Sé de Santarém, antiga Igreja de Nossa Senhora da Conceição do Colégio dos Jesuítas.
O edifício foi construído entre os séculos XVII e XVIII e apresenta uma fachada maneirista relativamente sóbria que contrasta com um interior de forte expressão barroca. Tornou-se catedral quando foi criada a Diocese de Santarém, em 1975.
No mesmo complexo encontra-se o Museu Diocesano, que reúne escultura, pintura, azulejaria e outras obras de arte religiosa, com peças que atravessam vários séculos.
É uma visita especialmente interessante para quem quiser compreender Santarém para além dos monumentos vistos apenas pelo exterior.
Santíssimo Milagre de Santarém
A Igreja do Santíssimo Milagre, ou Igreja de Santo Estêvão, ocupa outro lugar importante na história religiosa da cidade.
O templo está ligado a uma tradição de origem medieval associada ao chamado Milagre de Santarém e tornou-se local de peregrinação. O edifício conheceu grandes transformações ao longo do tempo: a origem é medieval, mas posteriores campanhas renascentistas e barrocas alteraram profundamente a aparência do espaço.
Mesmo para quem não visita Santarém por motivos religiosos, é um local interessante para compreender a importância que a cidade teve nas rotas de peregrinação e na história da espiritualidade portuguesa.
Santarém continua, aliás, integrada no Caminho Central Português de Santiago, que segue daqui em direção à Golegã e depois a Tomar.
Mercado Municipal de Santarém

Concierge.2C, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons
O Mercado Municipal é um dos locais que eu não deixaria de incluir numa primeira visita. Actualmente totalmente remodelado, mantém as caracteristicas de outrora no que diz respeito aos conhecidos painéis de azuleijos.
O edifício data de 1930 e foi desenhado pelo arquiteto Cassiano Branco. O grande destaque está no exterior: dezenas de painéis de azulejos representam cenas da vida agrícola, costumes, paisagens e monumentos ribatejanos. Os painéis figurativos foram produzidos pela Fábrica de Sacavém durante a década de 1930.
É um local especialmente interessante porque liga arquitetura, quotidiano e identidade regional. Em poucos metros, os azulejos contam uma pequena história visual do Ribatejo.
Para fotografar e observar os painéis com calma, vale a pena passar pelo mercado durante a manhã.
Passear pelo centro histórico
Entre monumentos, reserve algum tempo simplesmente para caminhar.
A zona histórica de Santarém conserva ruas estreitas, largos, fachadas revestidas de azulejos, pequenos estabelecimentos e diferentes camadas de arquitetura. O próprio município criou um percurso denominado Santarém Azulejar, com cerca de 1,3 km, que passa pelo Mercado Municipal e por várias fachadas decoradas da cidade.
É precisamente nestes percursos entre monumentos que Santarém ganha outra dimensão. Não é uma cidade para visitar apenas entrando e saindo do carro junto de cada atração.
Santarém e o 25 de Abril
Há ainda uma história muito mais recente que vale a pena recordar.
Na madrugada de 25 de Abril de 1974, uma coluna militar comandada pelo capitão Salgueiro Maia saiu da Escola Prática de Cavalaria de Santarém em direção a Lisboa. A sua intervenção tornar-se-ia decisiva nos acontecimentos que derrubaram a ditadura portuguesa.
Esta ligação faz de Santarém um dos locais importantes para compreender a história da Revolução dos Cravos e acrescenta uma camada contemporânea a uma cidade normalmente associada sobretudo ao passado medieval.
O que comer em Santarém
A gastronomia está intimamente ligada ao Ribatejo, à agricultura e ao Tejo.
Entre a cozinha tradicional encontram-se pratos associados às carnes, ao bacalhau e aos peixes do rio. A herança rural permanece muito presente, mas também existe uma forte tradição de doçaria.
Um dos doces mais conhecidos é o pampilho, cujo formato comprido recorda a vara utilizada pelos campinos. Também merecem atenção os Celestes de Santa Clara, associados à tradição conventual, e os Arrepiados de Almoster.
Se a viagem permitir um pequeno desvio, Almeirim fica mesmo do outro lado do Tejo e é o local tradicionalmente associado à famosa sopa da pedra. O próprio Turismo de Portugal recomenda conjugá-la com uma visita a Santarém.
No outono realiza-se ainda em Santarém o Festival Nacional de Gastronomia, um dos grandes eventos gastronómicos portugueses.
Quando visitar Santarém
Santarém pode ser visitada durante todo o ano, mas primavera e outono são particularmente agradáveis para explorar a cidade a pé.
Na primavera, as temperaturas são normalmente mais confortáveis e a paisagem da Lezíria está verde. No verão, os dias podem ser bastante quentes, pelo que é preferível visitar os monumentos de manhã e deixar as Portas do Sol para o final do dia.
Há também épocas em que a cidade ganha uma animação especial. A Feira Nacional de Agricultura / Feira do Ribatejo realiza-se anualmente no CNEMA e continua a ser um dos grandes acontecimentos associados à identidade agrícola da região.
Quanto tempo reservar para Santarém?
Para conhecer os principais locais, um dia completo é suficiente.
De manhã, começaria pelo Mercado Municipal, Convento de São Francisco, Sé e centro histórico. Depois do almoço, seguiria para a Igreja da Graça, Santíssimo Milagre, Torre das Cabaças e terminaria nas Portas do Sol.
Com dois dias, pode visitar os monumentos com mais calma, entrar nos museus e igrejas, fazer um dos percursos temáticos e explorar a ligação entre o planalto e a zona ribeirinha. O próprio turismo municipal promove um programa de 48 horas na cidade.
Como chegar a Santarém
De carro, Santarém encontra-se a cerca de 80 km de Lisboa, com acesso direto através da A1. O município estima aproximadamente uma hora de viagem a partir da capital, dependendo naturalmente do trânsito.
O comboio é igualmente uma excelente opção. Santarém situa-se na Linha do Norte e é servida por diferentes serviços da CP. Alguns comboios de longo curso fazem a ligação a Lisboa em cerca de meia hora.
Curiosamente, a própria estação merece atenção pelos seus painéis de azulejos.
Depois de chegar, o núcleo histórico é adequado a uma visita essencialmente pedonal, embora seja preciso contar com alguns desníveis entre o planalto e as zonas ribeirinhas.
O que visitar perto de Santarém
Santarém funciona muito bem como ponto de partida para explorar outras localidades.
A poucos minutos encontra-se Almeirim, ligada à gastronomia e à sopa da pedra. Para norte, Golegã oferece uma forte ligação à tradição equestre ribatejana e surge no percurso do Caminho de Santiago.
Mais adiante encontra-se Tomar, que estamos precisamente a integrar neste mesmo cluster do Conhecer Portugal. A ligação Santarém–Golegã–Tomar faz parte do Caminho Central Português de Santiago.
Esta proximidade permite facilmente integrar Santarém num roteiro de vários dias pelo Centro de Portugal, combinando património, gastronomia e paisagem.
Santarém merece uma visita?
Sim, sobretudo para quem procura destinos onde ainda é possível combinar património importante com um ambiente relativamente tranquilo.
Santarém não tem a intensidade turística de outras cidades históricas portuguesas, mas oferece muito: um dos melhores miradouros sobre o Tejo, uma concentração excecional de arquitetura gótica, igrejas e museus, azulejos, gastronomia ribatejana e episódios decisivos da história de Portugal.
É precisamente essa combinação que torna a cidade interessante. Santarém não é apenas uma paragem entre Lisboa e o norte. É um destino com identidade própria e um excelente ponto de ligação entre o Tejo, o Ribatejo e o interior do Centro de Portugal.













